O objeto de estudo da didática é o processo de
ensino-aprendizagem. Toda proposta didática está impregnada, implícita ou
implicitamente, de uma concepção do processo de ensino-aprendizagem.
Parto
da afirmação da multidimensionalidade deste processo: o que pretendo dizer? Que
o processo de ensino-aprendizagem, para ser adequadamente compreendido, precisa
ser analisado de tal modo que articule consistentemente as dimensões humana,
técnica e político-social.
Ensino-aprendizagem
é um processo em que está sempre presente, de forma direta ou indireta, o
relacionamento humano.
Para
a abordagem humanista é a relação interpessoal o centro do processo. Esta
abordagem leva a uma perspectiva eminentemente subjetiva, individualista e
afetiva do processo de ensino-aprendizagem. Para esta perspectiva, mais do que
um problema de técnica, a didática deve se centrar no processo de aquisição de
atitudes tais como: calor, empatia, consideração positiva incondicional. A
didática é então “privatizada”. O crescimento pessoal, interpessoal e
intergrupal é desvinculado das condições sócio-econômicas e políticas em que se
dá; sua dimensão estrutural é, pelo menos, colocada entre parênteses.
Se
a abordagem humanista é unilateral e reducionista, fazendo da dimensão humana o
único centro configurador do processo de ensino-aprendizagem, no entanto, ela
explicita a importância dessa dimensão. Certamente o componente afetivo está
presente no processo de ensino-aprendizagem. Ele perpassa e impregna toda sua
dinâmica e não pode ser ignorado.
Quanto
à dimensão técnica, ela se refere ao processo de ensino-aprendizagem como ação
intencional, sistemática, que procura organizar as condições que melhor
propiciem a aprendizagem. Aspectos como objetivos instrucionais, seleção do
conteúdo, estratégias de ensino, avaliação, etc., constituem o seu núcleo de
preocupações. Trata-se do aspecto considerado objetivo e racional do processo
de ensino-aprendizagem.
No
entanto, quando esta dimensão é dissociada das demais, tem-se o tecnicismo. A
dimensão técnica é privilegiada, analisada de forma dissociada de suas raízes
político-sociais e ideológicas, e vista como algo “neutro” e meramente
instrumental. A questão do “fazer” da prática pedagógica é dissociada das
perguntas sobre o “por que fazer” e o “para que fazer" e analisada de
forma, muitas vezes, abstrata e não contextualizada.
Se
o tecnicismo parte de uma visão unilateral do processo de ensino-aprendizagem,
que é configurado a partir exclusivamente da dimensão técnica, no entanto, este
é sem dúvida um aspecto que não pode ser ignorado ou negado para uma adequada
compreensão e mobilização do processo de ensino-aprendizagem. O domínio do
conteúdo e a aquisição de habilidades básicas, assim como a busca de estratégias
que viabilizem esta aprendizagem em cada situação concreta de ensino, constituem
problemas fundamentais para toda proposta pedagógica. No entanto, a análise
desta problemática somente adquire significado pleno quando é contextualizada e
as variáveis processuais tratadas em íntima interação com as variáveis
contextuais.
Se
todo processo de ensino-aprendizagem é “situado”, a dimensão político-social
lhe é inerente. Ele acontece sempre numa cultura específica, trata com pessoas
concretas que têm uma posição de classe definida na organização social em que
vivem. Os condicionamentos que advêm desse fato incidem sobre o processo de
ensino-aprendizagem. A dimensão político-social não é um aspecto do processo de
ensino-aprendizagem. Ela impregna toda a prática pedagógica que, querendo ou
não (não se trata de uma decisão voluntarista), possui em si uma dimensão
político-social.
No
entanto, a afirmação da dimensão política da educação em geral, e da prática
pedagógica em especial, tem sido acompanhada entre nós, não somente da crítica
ao reducionismo humanista ou tecnicista, frutos em última análise de uma visão
liberal e modernizadora da educação, mas tem chegado mesmo à negação dessas
dimensões do processo de ensino-aprendizagem.
De
fato, o difícil é superar uma visão reducionista, dissociada ou justaposta da
relação entre as diferentes dimensões, e partir para uma perspectiva em que a
articulação entre elas é o centro configurador da concepção do processo de
ensino-aprendizagem. Nesta perspectiva de uma multidimensionalidade que
articula organicamente as diferentes dimensões do processo de
ensino-aprendizagem é que propomos que a didática se situe.
[1] Vera Maria Candau, “A didática e a formação de educadores – da exaltação à negação: a busca da relevância”
[1] Vera Maria Candau, “A didática e a formação de educadores – da exaltação à negação: a busca da relevância”
